Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Meio milímetro

Não o julgue inteligente, ok?
Tudo o que ele faz é institivo e brutal. Nem mesmo intuitivo - que é uma forma mais refinada de instinto. Muito do que ele diz parece estimular o mental pois só pode ser entendido se for decodificado corretamente, o que nos leva a concluir que é preciso ser inteligente para acompanhar sua escrita. Ok. Concordo. Mas discordo quando dizes que ele deve ser muito inteligente para provocar isso. Ok. Burro, burro, talvez ele não seja... mas seu texto não é nada calculado. Aquelas coisas que te impressionaram o raciocínio naquele último sarau não acontecem de forma planejada. É somente instinto. As palavras apenas saem. São elas que ditam as normas e muitas vezes se atravessam na fila de forma nada civilizada e acabam saindo em disparada. A única coisa - e veja bem, peço que preste bastante atenção no que vou lhe dizer agora -... a única coisa que impede que o caos ponha tudo a perder é que tudo tudo tudo acaba num funil. Percebe? Pois bem, só há uma porta de saída, minha filha. Ela mede menos que meio milímetro de diâmetro. Isso mesmo: menos que meio milímetro. A porta é esférica e por ela só dá pra sair meia letra por vez. Então, lá dentro, dentro dele, eu digo, as palavras se acotovelam e gritam em desespero, querem sair a todo custo, mas percebem que só há uma porta de saída - e ela é es-fé-ri-ca. Compreendeu? Que alternativa lhes resta? Lutar. Na luta interna que ocorre no tunel afunilada que leva à porta esférica - desculpe a ênfase mas é muito importante você entender isso - Nesta luta interna, desesperada e brutal, o instinto faz sua parte. Como na natureza as palavras fortes se saem melhor e saem mesmo. Por outro lado, também como na natureza, e isso, você, por favor, pergunte ao criador, fracos também podem sair. É tudo imprevisível. É tudo instinto e brutalidade.
Então, minha filha, esquece essa história de inteligência, tá?

Domingo, Novembro 08, 2009

34 páginas a preencher

Eu sou muito fiscal.
Uma pessoa fiscal. Muito muito fiscal.
Fiscal, ora!!!! Fiscal! Fiscal! Não sabe o que é fiscal?

Eu amanheço normal. Abro os olhos e fico assim... fiscal.
Não me dou comigo. Não me aturo.
Alguém me chamou a atenção disso. Eu preferia não beber tanto porque se não teria sido o primeiro a notar... e a anotar. Eu tenho um pequeno livro de bolso cujas páginas são brancas. Ou melhor, as últimas 34 páginas são brancas, as anteriores estão escritas. Por mim, claro.

Vou aderir ao contrasenso comum e vou dizer agora que meu livro (de bolso) não existe em meu bolso. Eu o guardo em meu cérebro. Se vejo algo notável anoto. Guardar um livro no cérebro não é tão fácil quanto parece. Apesar das humildes dimensões - do livro e não dos meus miolos, esclareço -, a coisa incomoda. Sacode quando caminho. Espeta quando pulo. Não sei se notaram, não sei, mas livros costumam ter pontas em ângulos retos e, dependendo da grossura do objeto em questão, isto pode causar dor se premido contra a carne. O cérebro é o tipo da carne esponjosa que odeia extremidades e guardar sólidos pontudos dentro dessa maravilha não é recomendável nem mesmo tolerável. Mas eu guardo. Guardo por segurança pois meu livro de 34 páginas brancas e 10 primeiras, escritas por mim, está mais seguro no meio da carne esponjosa abrigada sob a caixa craniana quase calva e com indícios de seborréia, que em qualquer outro lugar do meu rotundo corpo. Livros de bolso no bolso podem cair - eu já tive essa experiência - e perder minhas anotações, sendo eu uma pessoa muito fiscal, me deixa desamparadíssimo. Vai tomar no cu. Essa expressão foi uma estratégia - e não uma atitude gratuita e arrogante como alguns leitores não-iniciados em minha escrita poderiam concluir. Mandei tomar no cu um outro pensamento que vinha durante esta escrita. Atualmente, quando detecto essas invasões, eu imediatamente corto com um "pare", "epa", "não, não e não" ou, quando o pensamento é perigoso, parto para algo mais drástico como um "vai tomar no cu". Tem funcionado. Não muito mas em geral corta o pensamento antes que atinja seu climax. Foi portanto uma medida profilática. Isso, exatamente isso, faz de mim uma pessoa fiscal. Brilhante conclusão. Um instantinho, por favor, tenho que anotar isso.
E eu tenho 34 páginas a preencher.

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

A Prática da Auto-Pesca

Estou escorrendo pelo ralo.
Estou escrevendo em meu braço.
Estou comigo e não abro. Não me abro. Não me abraço. Não mais.
Estou escutando o que falo. Não sei se faz sentido. (Acho que não faço.) Vejo o nonsense de mim em seu rosto. Finges calma. Finges amor. Esfinges. Decifra-me, meu ralo. O braço está acabando mas não me faltam palavras que escorrem para além do abraço, pelo chão, pelo mar que eu mesmo faço. Escorre um rio no mar. Um rio de falas viscosas, de afluentes poluídos - e poluentes. Revolta-se em seu leito imaginário, desenha um redemoinho que me suga - pelo braço. Abraço uma pedra no meio do caminho. Por medo de ser levado, faço dela salvação. Não é uma pedra. É uma Esfinge. É você. Que se vira para mim e me diz uma palavra anzol, uma frase leme, uma sentença âncora. Devo escolher a melhor opção mas não sei se carrego a luz necessária. Me apego a palavra. Fincada em minha bochecha, é ela a minha guia, é a força que me estica cabeça, pescoço e corpo, me alça vôo do escuro como se eu fosse aquela bota que se pesca quando se quer apenas fisgar um peixe. Vôo, vôo. O profundo é um distante mundo escuro e irreal que só se percebe quando se é puxado pela boca. É no trajeto da saída que esse mundo se revela. Os panos em meu corpo. Placenta regurgitada. O cordão do umbigo que me enforca. Sou um feto adulto com ganas de notalgia. Aprendi a voar aos 45 anos do segundo tempo. A mente implode em palavras do meu aneurisma sentimental. Alço vôo. A lucidez é a boca do ralo vista pelo lado de dentro. Talvez eu tivesse ouvido um agudo sibilante. Um sino ou sirene prolongada. Uma frequência dissipante. Uma nova forma de calor. A verdade elétrica. A quintessência da energia. Isso é a descrição de uma nova modalidade de parto - próprio para fetos adultos com ganas de nostalgia. Escreverei um livro sobre isso. Ficará na sessão de auto-ajuda - e, afinal, é o termo melhor. Não conheço outro para essa experiência. Talvez auto-pesca. A Prática da Auto-Pesca. - A meta deste livro será formar auto-pescadores. Pessoas pescadoras/peixes que aprendam as técnicas necessárias para se fisgarem das profundezas do seu mar interno. Eu preferia não escrever esse livro para não cair na rede dos aproveitadores mas será um serviço social - Revelo em entrevista à mídia especializada. Com o dinheiro arrecadado construirei minha Fundação de Amparo a Auto-pesca. Milhões de adeptos - no mundo todo. Pessoas influentes e agradecidas financiarão minha campanha. Serei coroado com um lugar no Executivo. Serei Ministro. No recém-criado Ministério da Auto-Pesca. Terei assessores. Muitos. O número necessário para manter a Auto-Pesca nas pautas da mídia. Alcanço a luz do ralo, a boca da realidade, parido no chão do banheiro com o mar reduzido a arquipélagos transparentes a minha volta. O som sibilante muda de tom e se tranquiliza. Desperto tossindo suas palavras da minha boca - afogado estaria se não respirasse através delas. "Capaz", "Certo", "Possuido" e "Tarefa", eu vomito pela boca afora. Outras palavras também. Todas se desfalecem em espiral rumo ao ralo. Sem dar tchau. Nem adeus. Apenas indo com uma aparência de dejá vu.
Eu sou o feto que se levanta.
Eu sou o feto que nasceu vestido.
Eu sou o feto que se senta, que ajeita a gravata e que confere as horas em vez de chorar.

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Meus valores, seus valores

Eu, tendo sido estúpido, arrogante e assassino secular...

Fui con-de-co-ra-do.

(aplausos e gritinhos histriônicos no recinto)
(tudo fingimento)

Me perdoem se não paro de rir. Eu sou assim. Se eu não rir vou entrar em convulsão. Sério. Serinho. Mais uma medalha no corpo e já tenho tantas em meu peito que o Presidente da Comissão Homenageosa teve que achar espaço em meu braço direito - o esquerdo não, pois pode dar mal agouro.
Eu adoro festas de concoração pois se bebe muito e pode-se reencontrar amigos. Amigos canalhas que não prestam para nada e tem amantes caras e impacientes. Eu amo as amantes de meus amigos, assim como meus amigos devem amar as minhas cinco também. Finjo irritação e, muitas vezes, acabo ficando irritado mesmo, com alguns garçons e reclamo do serviço mas elogio um ou outro escolhido (geralmente os muito velhos ou os muito novos - aprendi isso lendo Maquiavel). Sou da escola de transição, turma de 83. Tenho orgulho disso. Sentava no meio da sala pois no fundo ou na frente era muita bandeira. Quem sentava na primeira fileira era taxado de puxa-saco, de entreguista e de cu-de-ferro. Os do fundo, levavam a culpa de tudo. Eram os dispersos, os baderneiros, favelados... Eu me sentava no meio. Por bom senso social e autopreservação política, a postura se manteve. Sempre me situo ao centro de tudo com uma certa tendência a copos de uísque na mão, anéis nos dedos e riso didático.
O presidente elabora um discurso elogioso de 55 minutos e 30 segundos. Sou chamado ao microfone e renovo minha gratidão àquela auspiciosa casa de magistrados e... fuck off the rest. Sou um herdeiro de condecorações, medalhas e troféus. Minha família é grande - tanto quanto o diâmetro de nossos quadris, escravos de nosso peso. Minha família é extensa - tanto quanto as terras do nsso espólio e a lista de mortos que nunca se fez nestas mesmas terras que defendemos com a fidelidade de um cérbero.
Cada medalha tem um significado pessoal (extraio essa frase de meu discurso). Cada inimigo que elejo cair e que, efetivamene, cai; cada vitória do fracasso alheio; cada filhadaputa que não seja eu que levo ao umbral do inferno em vida, é um troféu que presentearei a um dos meus eleitos capatazes. Eu também sei honrar a gente do povo.
Há condecorações melhores que outras, há medalhas mais pesadas que outras. São chaveirinhos-brindes, são as canetas que ganho no congresso do meu caráter. As vezes as medalhas pesam o valor dos corpos tombados pela gangue que patrocino. As vezes são leves como as folhas de papéis que assinei e que vão sendo levadas pelo vento pra adormecer dentro dos processos em companhia das traças e da desagragação.
Mas eu represento a transição. Transição para o quê? Para um novo modelo de homem público... mais midiatizado, mais celebrado porque se é mais assassino também é mais didático... mais risonho e mais condecorado... mais público porque mais publicado mas mais privatizado por não ser mais privado.
Eu amo a vida que tenho.
Obrigado, meu Deus.

Sábado, Outubro 10, 2009

Isso é Consciência

A casa está onde deveria estar.
Eu é que estava me movendo. E um dia de não-sei-quando, comecei a me mover em círculos. A mente não está no mesmo espaço de antes. Move-se o tempo todo. Se perde. Quando se restabelece é para ver que a casa está onde deveria estar. A cama, o sono e o texto. Do texto às Palavras. Das Palavras ao Peso. Estavam em algum lugar e apenas esperavam o momento de escorrer de volta. Eu as carreguei comigo em meu movimento. Mas não cheguei a usá-las. Na verdade, as fui deixando de lado, no fundo da mala, pois não havia muito tempo e era melhor que não estivessem a vista. Melhor porquê? Não me perguntei um minuto sobre isso. Era melhor. E só.
Com o tempo tornaram-se parte do Peso a carregar. O Peso das Coisas em Desuso.
Com o tempo essa falta de prática tornou-se uma espécie de hábito e a face interminável do relógio foi virando minha guia. Um fluxo único e frontal. Sem retorno. Eu não percebia sua função. Mas percebia sua ação e aceitava. Achava que era assim que se construía uma realidade. E de fato ela se fez. A realidade onde eu me movia. A realidade onde se movem todos sendo cada um uma realidade.
Agora, quando reduzi minha velocidade, com uma freada repentina demais, vi a realidade passar por mim, vi meu corpo querendo continuar como se só existisse a possibilidade de ir, ir e ir. Para trazê-lo de volta foi preciso que freasse mil vezes. Frear em todas as camadas do meu ser. Foi singular.
Foi assim, freando mil vez, que aprendi a não me assutar com o atrito do ar em minhas mucosas da garganta, aprendi que aquilo era eu mesmo trazendo algo de fora para dentro.

Domingo, Maio 11, 2008

Minha nova teoria sobre o futuro da arte

Para obter minha nova teoria sobre o futuro da arte: Uso correntes apertadas por cadeados cujas chaves perdi. "Nada nada nada!" Repito 3 vezes como quem canta um refrão. Subo uma colina na única cidade onde ainda tem uma. Se não ando me arrasto para chegar ao seu topo. Se arrasto carrego fragmentos de terra em todo meu corpo e as correntes se sujam e eu suo nas correntes sujas para ter mais emoção.

Vamos parar por aqui. Esse escrito não começa da maneira certa. Indo por esse caminho não irei para lugar algum. A verdade é que não tenho a mesma verve de antes. Estou como a arte só que com menos adeptos. Nos estertores e repetitivo.

Pronto. Terminei minha nova teoria sobre o futuro da arte.

Quinta-feira, Março 01, 2007

Pequenas notas de relatos de casos de nomes

Dênis tomou o valium e um copo de conhaque.
Dênis teve um pensamento indefinido durante este momento. Não vamos analisar o pensamento de nosso amigo mas rezar por nossas pobres vidas.

Almir teve seus dias de glória.
Dois. Terça e quarta da semana passada. Só.

Phileas Fogg. João Alberto foi recompensado após 30 anos de espera. Este juiz concordou e na quinta-feira, 7 de março, este homem nascido João Alberto deixou de existir dando lugar a Phileas Fogg. "Saio do cartório com a certeza de minha felicidade." E foi... Com sua nova identidade a correr pelo mundo.

Anita lava e passa. Anita cose as roupas. Anita aria panelas. Anita, inimiga das moscas e mosquitos.
Cuida da casa cuida, Anita mas depois vai dormir. Amanhã será outro dia de pó.

Cráudio tem vergonha de seu nome. Quando se apresenta não diz o primeiro nome.
Diz apenas: "Da Silva. Prazer."

Bartolomeu Gusmão descobriu sua árvore genealógica graças à internet. Que maravilhosa ferramenta. Espanhóis e portugueses encontraram índias nas terras selvagens do paraiso tropical. Foi por terra sua teoria das raízes escandinavas.