Eu sou muito fiscal.
Uma pessoa fiscal. Muito muito fiscal.
Fiscal, ora!!!! Fiscal! Fiscal! Não sabe o que é fiscal?
Eu amanheço normal. Abro os olhos e fico assim... fiscal.
Não me dou comigo. Não me aturo.
Alguém me chamou a atenção disso. Eu preferia não beber tanto porque se não teria sido o primeiro a notar... e a anotar. Eu tenho um pequeno livro de bolso cujas páginas são brancas. Ou melhor, as últimas 34 páginas são brancas, as anteriores estão escritas. Por mim, claro.
Vou aderir ao contrasenso comum e vou dizer agora que meu livro (de bolso) não existe em meu bolso. Eu o guardo em meu cérebro. Se vejo algo notável anoto. Guardar um livro no cérebro não é tão fácil quanto parece. Apesar das humildes dimensões - do livro e não dos meus miolos, esclareço -, a coisa incomoda. Sacode quando caminho. Espeta quando pulo. Não sei se notaram, não sei, mas livros costumam ter pontas em ângulos retos e, dependendo da grossura do objeto em questão, isto pode causar dor se premido contra a carne. O cérebro é o tipo da carne esponjosa que odeia extremidades e guardar sólidos pontudos dentro dessa maravilha não é recomendável nem mesmo tolerável. Mas eu guardo. Guardo por segurança pois meu livro de 34 páginas brancas e 10 primeiras, escritas por mim, está mais seguro no meio da carne esponjosa abrigada sob a caixa craniana quase calva e com indícios de seborréia, que em qualquer outro lugar do meu rotundo corpo. Livros de bolso no bolso podem cair - eu já tive essa experiência - e perder minhas anotações, sendo eu uma pessoa muito fiscal, me deixa desamparadíssimo. Vai tomar no cu. Essa expressão foi uma estratégia - e não uma atitude gratuita e arrogante como alguns leitores não-iniciados em minha escrita poderiam concluir. Mandei tomar no cu um outro pensamento que vinha durante esta escrita. Atualmente, quando detecto essas invasões, eu imediatamente corto com um "pare", "epa", "não, não e não" ou, quando o pensamento é perigoso, parto para algo mais drástico como um "vai tomar no cu". Tem funcionado. Não muito mas em geral corta o pensamento antes que atinja seu climax. Foi portanto uma medida profilática. Isso, exatamente isso, faz de mim uma pessoa fiscal. Brilhante conclusão. Um instantinho, por favor, tenho que anotar isso.
E eu tenho 34 páginas a preencher.